terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O HOMEM ROSA-CHOQUE

Era madrugada e eu e minha namorada na época saíamos de um restaurante próximo ao centro velho da cidade.

Atravessávamos a avenida deserta assonados e despreocupados, quando aquele homem surgiu subitamente a nossa frente.

Sujo, mal barbeado, vestindo roupas escuras e uma capa negra rasgada.

Cercou-nos e nos pegou no contra-pé.

Veio em nossa direção com um olhar como nunca eu havia visto.

Um sorriso perigoso, um louco com uma idéia fixa, nos atacar, nos agredir.

Uma de suas mãos estava dentro do casaco, tive certeza: "ele tem uma faca."

Pensei em protege-la, avancei a sua frente pronto para enfrentar o agressor.

Quando ele, num gesto insólito paralisou minha ação, jogou-me ao chão.

Eu, minha prepotência e preconceito fomos esmagados pelo que ele me fez.

Quando estava a menos de um metro de nós, sacou de seu casaco sua terrível arma: uma flor rosa choque.

Fez isso enquanto no rosto mantinha o seu sorriso ameaçador.

Naquele momento minha existência pareceu nada.

Minha vaidade e arrogância foram dizimadas.

Senti-me frágil. Não estaria assim se aquele maltrapilho tivesse me atacado com um pau ou com a uma faca. Como eu sempre esperaria de um sujeito assim.

Mas ele, covardemente, me esmagou com sua flor de canteiro.

Senti-me sem pés, flutuei, desconheci meus passos seguintes.

O homem, o ser imundo e fantástico, afastou-se de nós após deixar a sua arma nas mãos de minha namorada.

Cruzou a esquina e desapareceu.

Nunca mais o vi.

Guardo vagamente o seu olhar.

Passei vários dias lembrando de suas palavras nunca ditas.

Ele se foi, talvez tenha morrido ao atravessar uma rua bêbado, ou esquálido faminto definhou até sumir.

Nunca soube seu nome, nem porque fez aquilo.

Pelos dias que se seguiram olhei a sua arma depositada em um copo com água, tentando entender.

Tenho hoje só as lembranças e as cicatrizes do ferimento que ele causou em minha alma.

Nunca mais fui o mesmo e nunca mais o esqueci, mas hoje acredito, mais do que nunca, em anjos que transformam a nossa vida, como aquele homem e seu gesto transformador, o “ homem rosa choque.”

de Antonio Ravan

terça-feira, 22 de novembro de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

" O INCÔMODO "

É muito comum aceitar a vida como ela é. 


Às vezes as coisas não vão bem em casa, no casamento, no trabalho. 
Ficamos sem perspectivas e sonhos e nos sentimos insatisfeitos e deprimidos. 
É comum também nestas situações empurrar a vida com a " barriga ". 
O ruim é conhecido, é cômodo, é seguro e o novo é desconhecido, incômodo e inseguro.


Parece contraditório este pensamento, mas é assim que a maioria das pessoas empurra suas vidas por anos.

Embora em nossa vida profissional falemos de inovação e quebra de limites usamos, na maioria das vezes, velhos métodos e conceitos rígidos tentando alcançar o novo. 
Temos medo de errar, de parecermos idiotas e de perder o nosso emprego. 


É, mudar é mesmo um incômodo, um incômodo solitário. 


Nós, seres humanos sociais, queremos fazer parte do rebanho, queremos ser aceitos pelos outros e aí não fazemos coisas diferentes deles por temer sermos deixados de lado, causar estranheza na maioria e ficarmos sós. 

Mas uma coisa eu tenho certeza, quem fez a diferença na vida, quem inovou no seu campo de atuação, assumiu este risco de mudar, de fazer a diferença e fazer o diferente, foram aqueles que revolucionaram o mundo e são aqueles que nós admiramos. 
Ao lermos sobre eles ou olharmos suas figuras pensamos: " Eles eram seres superiores, especiais. " 

Bem, essa é a dedução mais fácil para aceitarmos nossa falta de coragem. 
Sim coragem, porque se arriscar e partir em direção ao que acreditamos denota coragem. 
E aí, a nossa desculpa se sente apoiada e dizemos: " mas eu tenho medo de mudar, de arriscar." 

Mas pense, coragem não é a ausência do medo, mas ir em frente apesar dele. 
Os mestres, os magos, os revolucionários, os cientistas, os criadores, foram em frente com o que acreditavam apesar do medo e apesar de muitos dizerem que eles estavam errados. 

Então temos sempre essas duas escolhas: aceitar a nossa pequenez ou aceitar a nossa grandeza. 

O risco de fazer algo novo é um incômodo. 

É como aquele incômodo que a ostra sente quando um grão de areia se instala dentro da concha. 
É como o incômodo que sentimos quando temos o desconhecido a frente, ou quando somos exigidos pela vida a fazer o que não estamos acostumados a fazer. 
Com o tempo aquilo que não conhecemos pode se mostrar um diferencial, a solução para resolvermos nossas dificuldades e alcançarmos os melhores resultados. 

E o que parecia um incômodo, algo diferente e assustador, transforma-se, como dentro da concha, em uma valiosa Pérola, uma joia, uma nova e espetacular solução.

A CRIANÇA E O PROFISSIONAL DE SUCESSO.

Imagine a seguinte situação: um competente profissional alcança um dos mais altos degraus na hierarquia de poder de uma grande empresa.


Trabalhou muito para chegar lá, venceu cada obstáculo que surgia com competência e capacidade técnica. 


A cada conquista foi se tornando mais admirado e respeitado.
Ele se tornara um mestre, conhecedor profundo em sua área de atuação. 


Certo dia, é convidado a falar de sua experiência e trajetória de sucesso. 


Uma platéia formada por jovens profissionais espera ansiosa por ouvi-lo. 

O grande dia chega, bem vestido, ele aguarda o momento de “entrar em cena“. Na platéia, além dos jovens profissionais, também estão lá o presidente de sua empresa, diretores, convidados ilustres, professores, técnicos.
Tudo parece perfeito para que o “show” comece. 


Por fora seu rosto está sorridente, tentando aparentar calma e confiança, mas por dentro... 
Bem..., por dentro um vulcão de emoções expele lavas de temores incontroláveis que sua razão e todo o conhecimento em sua área não conseguem sossegá-lo. 


Embora conheça alguns truques de oratória e de como posicionar-se frente a uma platéia, isso agora parece não ser o suficiente para acalmá-lo. 


Ele começa a palestra com a voz trêmula, mãos suadas, anda de uma lado para o outro como uma fera enjaulada, perde-se no que diz, tem brancos sobre o que veio falar, além da pouca espontaneidade dos gestos. 


Pensa se está conseguindo agradar a platéia ou se estão achando que ele é um idiota.

O homem de sucesso, que durante sua carreira valeu-se de sua confiança para conquistar degraus importantes, agora rola escada abaixo se sentindo um menino assustado.

Acredite, isto é bem comum, já ouvi esta história muitas vezes. 


Só quem pode libertar esses profissionais desse medo de se expor, de não se levar tão a sério, de aprender a relaxar, brincar consigo mesmo e com a platéia, é a criança que mora neles. 


Lembra-se daquela música da banda 14 BIS: “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração, toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão...”

Sufocarmos esta fonte natural de espontaneidade e a trocamos por uma imagem vendida de pessoas muito sérias e adultas, que temem parecer fracas, exigimos muito de nós mesmos e temos um preconceito em relação ao humor, ligando-o a irresponsabilidade.

Negar nossos medos e inseguranças não nos faz mais fortes e seguros.

Fugir do autoconhecimento pelo incomodo que há em descobrir que apesar da nossa competência profissional também temos receio de fracassar, de não parecermos tão inteligentes e temer a auto-exposição, não nos deixará mais a vontade em estar em público.

O que o Teatro e suas técnicas propõem é um laboratório onde o profissional não ator pode experênciar novas formas de apresentação, de exposição e de criatividade. 


O jogo teatral faz fluir os entraves emocionais e as sutis barreiras pessoais que prejudicam o bom relacionamento dentro de uma equipe de trabalho. 


E através da brincadeira e do jogo lúdico, extravasa as tensões diárias, equilibrando o estresse.

E isto é o que tenho dito aos que me procuram. É através do uso de técnicas, exercícios teatrais e de psicodrama que tenho reforçado a confiança da criança que vive dentro de nós e que nos faz enfrentar os desafios da auto-exposição com mais tranquilidade e espontaneidade.

Curso: TEATRO PARA DESINIBIÇÃO E EXPRESSIVIDADE
Link do curso:
http://www.ceantonioravan.com/products/teatro-para-desinibicao-e-espontaneidade/